Dizem que não se pergunta a idade a uma mulher mas Ela leu num dos seus escritores preferidos que a mulher que não tem medo de dizer a sua idade é a mais destemida. Desde essa altura que não tem medo de contar os seus anos, mesmo que não saiba lidar com eles.  Tem vinte e sete. Tem olhos curiosos e muitas perguntas que sempre a fizeram uma pessoa desconfortável para quem não gosta de responder a porquês. Gosta de se proteger dando-se a conhecer primeiro e apenas com aquilo que quer. Mede pelos dedos os amores que teve na vida e há muito que deixou de contar os beijos que deu a desconhecidos. Diz que é pelo beijo que reconhece as almas e que poucas são as que se cruzaram com a dela. Não gosta de magia e por isso detesta truques de ilusionismo – nunca gostou de pessoas que desaparecem. Gosta de acreditar em algumas ciências duvidosas que lê em artigos de revistas. Por exemplo, de que as nossas células se substituem totalmente de 7 em 7 anos e que isso implica que daqui a 7 anos será como se tu nunca lhe tivesses tocado. É uma dramática dentro do optimismo sombrio: não é que não acredite em finais felizes, simplesmente não lhe acontecem a Ela.

Gosto muito de novos começos. Pode parecer uma redundância: o “novos” e os “começos”, mas a intenção é mesmo essa. Não por os começos serem sempre novos, mas porque são sempre uma oportunidade de sermos novamente quem gostávamos de ter sido. Dizem que as pessoas só se apaixonam quando ainda não se conhecem e eu reforço que é por isso que se apaixonam: porque podem imaginar o que quiserem que a outra pessoa seja. Podemos querer que ela seja o que nos faltou. Ou o que achamos que nos faz feliz. Ou o que achamos que falta a essa pessoa. Ela não passa, por isso mesmo, de uma representação de nós mesmos. Ou seja, apaixonamo-nos pelo que somos. Pelo que achamos que somos. Pelo que achamos que nos falta. Ou pelo que gostávamos de ser?
Entrei devagar e em bicos de pés para não te acordar ainda mais. Tinha vestido uma roupa à pressa para chegar e vestir logo o teu pijama. Era muito cedo e quando entrei estavas na cama embrulhado nos lençóis e com o quarto às escuras. Debrucei-me em ti e puxaste-me para o teu abraço. Quando nos apaixonamos todos os clichés são verdades incontestáveis e nunca duvidei que o teu abraço fosse o melhor lugar do mundo. De todas as verdades incontestáveis que me disseste as que mais gostei foram as que me dizias ao ouvido. Até quando me cantavas a nossa música. Quando cantámos os dois, era madrugada e vínhamos da discoteca e antes de nos despedirmos cantámos um para o outro a música que nos chamava loucos. E todas as noites em que tocava à tua porta e a encontrava já aberta  eram noites ganhas em saber que me esperavas. Era noite cerrada e a discoteca tingia-nos de cores azuladas, arroxeadas e em sombras enigmáticas quando me leste os lábios a dizer que te amava e me apertaste contra o teu peito. Não havia lugar mais certo do que o teu abraço. Também nunca esqueci as noites em que adormeci no teu sofá e acordei contigo a tirar-me os óculos e pousá-los longe enquanto te embalavas no meu corpo e, invariavelmente, deixavamos os filmes a meio. Ou quando me ligavas, me procuravas e querias estar comigo e me dizias as mais bonitas verdades. Sabes aquela história das galáxias e de nos pertencermos intemporalmente por fazermos parte da mesma estrela? Se calhar estamos no universo errado. Ou então só nos resto o pó de estrelas que nos pertence. Gostava de ter vivido isto sendo o ela foi para ti. A maior tristeza é ter vivido tudo contigo sem tu o teres feito comigo. Gostava de ser ela para que fosse eu quem não quisesses deixar partir.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Há um lugar em nós onde não gostamos de ir. É, por norma, um lugar escuro, um recanto qualquer que se acomoda entre as costelas, os pulmões e o coração. Digo isto porque quando lá vamos sufoca-nos a respiração e nos aperta o coração, parece até que ele estrangula na circulação do sangue a bombear descompassado. Não sei como se chama esse lugar, mas é um lugar de infinitas possibilidades e de respostas, das mais negras e puras que podemos encontrar. Acho que é o local das verdades que já sabemos mas temos medo de as confrontar. Quando lá vamos sabemos que, inquestionavelmente não haverá retorno. Uma espécie de catarse, sem ser bem uma apoteose. A última vez que lá tinha ido foi quando me perguntei se te devia beijar naquela noite, no teu sofá branco. A resposta pareceu-me clara, luminosa e inquestionável. Sabes aquela história das coincidências?

Somos pó da mesma estrela e sei que nos pertencemos para além do universo. O tempo aqui não existe porque a nossa intemporalidade persegue-nos para além da existência. Sinto isso na forma como nos alinhamos na respiração, no olhar sereno que em que pousamos a profundidade do que temos em comum. É isto que significa quando dizes que tenho os olhos grandes e que entram dentro de ti. São metades de ti que se encontram na linha ténue do reconhecimento. E por isso a ferida não sara e o tempo não cura, porque ele existe em nós para além da matéria, da mesma forma que os átomos em que nos movimentamos em ondas sonoras nos chegam em bonitas palavras de amor. Eu vejo como olhas para mim. A comunicação que criamos nessa forma vai para além do espaço em que existimos. E é por isso que os porquês doem – obrigam-nos a crescer nas respostas que temos medo de dar ao outro. Não se pode dar um nome a um universo novo, mas podemos criar as nossas constelações e saber que este tempo nos deu um alinhamento cósmico.  Porque se partires levas metade de ti e de mim, em estrelas desfragmentadas.
Sabes aquela sensação em que olhas para o teu joelho esfolado que magoaste ontem quando tentavas andar de bicicleta sem rodinhas sem ninguém saber porque não aguentas que saibam que falhaste, e ficas obcecado com a crosta que começa a proteger a tua ferida? A crosta já quase que tapa a ferida toda. Sentas-te no sofa a ver os desenhos animados, vais ao supermercado com a tua mãe, vais às aulas de ginástica e fazes de tudo para resistires à vontade de a arrancares. Tentas distrair-te com as tuas coisas preferidas mas a ideia volta-te sempre à cabeça.
Há uma altura que ficas embrigado na ideia de que o teu joelho já não doi, a crosta já fez efeito. E ela apanha-te sozinho, a crosta, nesse transe de estares curado. É nesse ponto, nesse milésimo de segundo que deixas de acreditar no que queres e convences-te que já estás sarado e ignoras a voz na tua cabeça – que é a voz da tua mãe – a enumerar as consequências por pontos.
Cedes, arrancas a crosta com aquele sabor de conquista na boca, de missão cumprida, de clandestinidade, e de estares descoberto num campo minado. Cedes só para descobrires que por baixo daquela mancha feia, dura e escura que te estava a proteger - a proteger o teu joelho - só para descobrires que a ferida que fizeste anteontem ainda está em carne viva a latejar. Sabes essa sensação?

Repetem-se os erros a medir pelos dedos as vezes que dissemos ser a última vez. E revemo-nos em elevadores, a fechar portas, a bater as portas dos carros e na nossa cabeça era a última vez.
Poucos – ou se calhar todos nós – temos a capacidade de renascer dentro das perdas que nos acontecem e só por este esquecimento (certamente desumano) conseguimos abrir novamente as nossas inseguranças e nos mostrarmos em carne crua. O coração sangrento, a latejar em carne viva para aqueles a quem damos o direito e a honra de nos ver a sangrar – a ser humanos.
Outras vezes temos a certeza de que vale a pena mostrar que as costelas não se fizeram gaiola e que o coração continua a conseguir bater livremente e desritmado – por ti.
Às vezes temos a certeza de que vale a pena medir os pros e os contras. E esquecer os contras. Pensar que são mais as coisas que nos unem do que as que nos separam e utilizar todos os clichés que tivermos para persistir no que acreditamos. É qualquer coisa como aquela frase que nos diz…e se cairmos…mas, oh…e se não cairmos?
Sou muito fácil de ler – não sei se literalmente – mas na vida. Não há olhos que não consiga esconder e os meus nós na garganta desenlaçam-se rapidamente em lágrimas. Sou mais de emoções do que de racionalizações e gosto da carga que dou às pessoas e, no fundo, às experiências. Tenho manias e descalçar-me onde quer que me sinta confortável é uma delas. São jeitos e feitios mais do que características e sabes que sempre que palmilhar a tua casa descalça me sinto em segura. Da mesma maneira que sempre que te perguntar se queres que cozinhe te estou a dizer que me preocupo e que te vou dar tudo o que conseguir. Ou quando te sentares no chão e eu encostar-me a ti, como gostas, é a minha maneira de te dizer que sei, que estou atenta e quero estar para ti como quero que estejas – e fiques – para mim.
Não estamos em tempo de jogos – porque sempre odiei as escondidas e a apanhada. É tempo para ficar, experimentar os dias com as coisas que nos fazem feliz, como tu fazes feliz.

Filipa,

Se eu te pudesse aconselhar dir-te-ia para fazeres tudo de novo e melhor, e tudo diferente. Sabes aquelas pessoas que dizem que não mudavam nada? É porque não aprenderam com os erros. Se eu pudesse voltar atrás era para te ensinar e espero que fiques orgulhosa pelo que aprendi. O mundo não é linear e o tempo não é igual para todos – clichés importantes. A conversa mais díicil que terás será entre os teus dedos e a pele de outra pessoa, não menosprezes o que as outras pessoas te dizem porque elas te dão sempre – sempre – indicações do que podes ter delas. Só tens de saber ler nas entrelinhas e principalmente na forma como te procuram.
É díficil perder o nosso Peter Pan, mas mantém-no em ti o máximo tempo que conseguires – não te percas de ti, procura estar bem sozinha, não procures validação, nem atenção, nem amor. Não procures que te perdoem e acima de tudo não peças que te aceitem como és – sê. Não procures ninguém, não insistas, não corras atrás. Não tenhas medo de ser feliz porque pode acontecer uma tragéda a seguir. Respira.

A minha mãe faz anos. Seria tudo muito banal não fosse ela a minha mãe. Foi ela (e o meu pai) que me ensinaram as coisas básicas da vida como dizer obrigada e pedir por favor. Mas também as mais complicadas como ter cuidado a atravessar a estrada e a fazer a cama todos os dias “porque sabemos como saímos, não sabemos como voltamos”.
Dizer que é a melhor mãe do mundo é também banal, como sabemos preferimos sempre a nossa mas a minha é mesmo a melhor, é o melhor pilar e a melhor gargalhada e nunca se cansou (cansa!) de me empurrar no baloiço para que eu estivesse sempre mais perto do sol.

A pior sensação do mundo é saberes que és tu quem causa a fractura. É quase aquela sensação de arrancar a crosta ainda em carne viva para descobrir sangue a latejar por baixo. É inevitável. E é um abismo do qual não consegues fugir – não sei se do balanço.
Sabes também aquela sensação do tempo suspenso? Como uma fotografia – está parado. Estás à espera – e a pior sensação é quando estás à espera de uma decisão que não vem de ti. Como é que sabes medir o equilíbrio entre a paciência e o teu instinto para definires o que é melhor para ti, por ti mesmo. F. Scott Fitzgerald escreveu que a rapariga que vale a pena é aquela que não espera por ninguém. E quando te vês à espera, quem és? És quem vale a pena? Esperas? Continuas à espera, com a esperança? Com a tua esperança de que vale a pena?

Focamo-nos demasiado nos fins para não pensarmos nos princípios. As histórias acabam sempre com foram felizes para sempre, mas deviamos focar-nos no "Era uma vez”. Por exemplo, procuramos todos o fim para sermos felizes para sempre, mas se chegarmos ao fim já lá estamos. E depois não há nada. É estranho que o para sempre seja um segundo – é pó de estrelas na mesma medida que se move a anos-luz. Já está. O “Era uma vez” dá-nos tempo. Para nos conhecermos e darmos os primeiros erros, as primeiras calinadas e as primeiras dores de cabeça, as primeiras noites sem dormir porque “o que será isto?”.  As primeiras perguntas sobre o futuro e a cabeça a atar o coração para que não voe no para sempre. As primeiras inseguranças e os primeiros medos. Dá-nos tempo para nos apercebermos de que fazes sentido agora e no para sempre que invariavelmente quero atingir. Irremediavelmente a amar-te por cada (uma) vez as tuas manias, bengalas de discurso, maneira de pentear o cabelo ou sorriso que encontro no meu beijo. Tudo para chegar, com calma, a viver feliz para sempre. Contigo.

Ele não sabe que as tatuagens dela estão por baixo da pele. E não sabe que nunca ninguém as viu nem sentiu, nem soube que existem. Às vezes são cornucopias requintadas, outras vezes cicatrizes dissimuladas. Ele não sabe e por isso não percebe – ou não quero que perceba? Ele não sabe que o medo de perder é maior do que o medo de ter mais linhas tatuadas por dentro. O problema de amarmos alguém é esse: dar uma coisa de nós que às vezes não temos e a verdade nua e crua das tatuagens por baixo da pele dá medo e poder, medo do feio, medo de dar medo, medo das tatuagens nos tirarem a luz e nos tornarem pessoas, só pessoas com tatuagens por baixo da pele.  E se não gostar das minhas tatuagens?